O Banco Central do Brasil deu início ao tão aguardado ciclo de cortes de juros em março de 2026, mas a decisão saiu temperada por um alerta raro e direto: a escalada da guerra no Irã mudou as regras do jogo e pode frear ainda mais a trajetória de queda da taxa Selic. Em reunião realizada nos dias 17 e 18 de março, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, levando a taxa de referência de 15% para 14,75% ao ano. Foi o primeiro corte desde maio de 2024 e encerrou um período de nove meses em que a taxa permaneceu no maior patamar em quase duas décadas.
O movimento, embora esperado pelo mercado, foi mais modesto do que parte dos analistas previa até o início de março. A disparada dos preços do petróleo provocada pelo conflito no Oriente Médio obrigou o Copom a abandonar a sinalização de uma queda mais robusta e a adotar uma postura de extrema cautela. No comunicado oficial, o comitê afirmou que o ambiente global se tornou “mais incerto” devido à escalada dos conflitos geopolíticos, com volatilidade nos preços de ativos e commodities exigindo prudência adicional das economias emergentes.
Corte modesto em vez de queda robusta
A decisão unânime de 25 basis points contrasta com a expectativa de corte de 50 basis points que ganhava força entre economistas até poucas semanas antes. A razão para a contenção está nos números. O barril de Brent, que negociava próximo de 72 dólares na véspera do conflito, chegou a superar 100 dólares em meados de março, acumulando alta de cerca de 43%. Para um país que exporta petróleo, mas depende de importação de derivados como diesel, o impacto é duplo. Por um lado, maiores receitas de royalties e dividendos da Petrobras ajudam as contas públicas. Por outro, a pressão sobre preços de combustíveis e insumos industriais ameaça reacender a inflação doméstica.
O próprio Banco Central reconheceu o dilema em seu Relatório de Inflação de março. O documento apontou que as projeções de inflação para o horizonte relevante da política monetária — o terceiro trimestre de 2027 — subiram de 3,2% para 3,3%, ainda dentro da meta de 3%, mas mais próximas do teto da banda de tolerância, que vai até 4,5%. O comitê destacou que a incerteza em torno das projeções “aumentou consideravelmente” pela falta de clareza sobre a duração dos conflitos e seus efeitos nas variáveis que alimentam os modelos de projeção.
Risco de inflação acima da meta
Analistas consultados pelo Valor Internacional reforçam o cenário de risco. Cálculos da consultoria Logos Economia indicam que um cenário extremo, com petróleo sustentado em 120 dólares o barril, poderia empurrar a inflação brasileira a 5,58% no fim do ano, mais de um ponto e meio acima da projeção anterior de 4%. O consultor Sérgio Vale, da MB Associados, observou que sinais de ambos os lados do conflito indicam que a guerra não será curta. Para ele, o mais prudente seria o Banco Central adiar o início do ciclo de cortes para ganhar tempo na avaliação da trajetória do choque externo.
A questão do diesel é particularmente sensível para a logística brasileira. O aumento nos custos de transporte costuma se espalhar por toda a cadeia produtiva, desde o agronegócio até os preços de alimentos nas grandes cidades. Economistas da Quantitas estimam que, se a Petrobras repassasse integralmente a alta do petróleo, o impacto direto no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) seria de 0,7 a 0,8 ponto percentual. A companhia, porém, costuma suavizar os reajustes, deixando parte do aumento para trás e criando uma defasagem em relação ao mercado internacional.
Resiliência doméstica x pressão externa
Apesar da pressão externa, alguns fatores domésticos dão fôlego ao Banco Central. A inflação de 12 meses medida pelo IBGE recuou para 3,81% em fevereiro, o menor nível desde abril de 2024, ainda que acima da meta central de 3%. O desemprego, por sua vez, segue em 5,4%, próximo de mínimas históricas, mas com sinais de arrefecimento da atividade econômica. O Produto Interno Bruto brasileiro cresceu 2,3% em 2025, abaixo dos 3,4% de 2024, e o mercado projeta expansão de apenas 1,8% para 2026, segundo a pesquisa Focus do BC.
O corte de 25 pontos-base foi interpretado pelo mercado como uma saída intermediária. Permite ao Banco Central iniciar o alívio monetário sem abandonar a credibilidade construída ao longo de meses de taxa elevada, mas preserva espaço para interromper o ciclo caso o choque de petróleo se mostre mais persistente do que o esperado. Em seu comunicado, o Copom deixou claro que os próximos passos dependerão da chegada de novas informações sobre a profundidade e duração dos conflitos no Oriente Médio, bem como de seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo.
Dilema global dos bancos centrais
A estratégia adotada pelo Brasil não é única. Bancos centrais de várias economias emergentes e desenvolvidas enfrentam o mesmo dilema em 2026: como equilibrar a necessidade de estimular crescimento contra o risco de que um choque de oferta de energia desancore as expectativas inflacionárias. O Federal Reserve dos Estados Unidos manteve as taxas inalteradas em sua reunião de março, mas revisou para cima a projeção de inflação do país em função da guerra. O Banco da Inglaterra e o Banco Central Europeu sinalizaram posturas mais hawkish diante da escalada dos preços do petróleo e do gás.
No caso brasileiro, o real tem se mostrado relativamente resiliente, beneficiado pelo diferencial de juros ainda elevado e pela melhora nos termos de troca derivada dos preços mais altos do petróleo. Nos últimos dias de abril, a moeda chegou a tocar 4,94 por dólar, nível mais forte desde março de 2024, segundo dados do Trading Economics. Esse movimento ajuda a conter a inflação via canal cambial, mas não elimina a pressão que vem dos preços de combustíveis e fertilizantes.
O que esperar da próxima reunião
Para investidores e empresas, a mensagem do Banco Central é clara: o ciclo de cortes começou, mas não há garantia de velocidade ou direção. A próxima reunião do Copom, prevista para 28 e 29 de abril, será o primeiro teste real de como o comitê incorpora a evolução do conflito em sua decisão. Se o cenário externo se acalmar, o mercado precifica cerca de 275 pontos-base de cortes até dezembro, o que levaria a Selic a aproximadamente 12%. Se a tensão persistir, o BC pode optar por manter a taxa inalterada ou reduzir em ritmo ainda mais lento.
O que está em jogo vai além da taxa de juros. A capacidade do Brasil de navegar por esse choque externo sem comprometer a trajetória de queda da inflação será determinante para a credibilidade da política monetária e para as condições de financiamento da economia em um ano eleitoral. Com o governo enfrentando desafios fiscais e o Congresso debatendo o cumprimento das metas de superávit primário, o Banco Central sabe que qualquer deslize na condução dos juros pode ter custos políticos e econômicos duradouros.
Fontes:
Wall Street Journal (12 mar 2026): “The War in Iran May Upend Brazil Central Bank’s Plans to Cut Rates”. Acesse a notícia original
Wall Street Journal (18 mar 2026): “Brazil’s Central Bank Cuts Rates, Future Actions Unclear Amid Middle East Conflict”. Acesse a notícia original
Financial Times (15 mar 2026): “Central bank guidance in focus as big four set rates for first time since Iran war”. Acesse a notícia original
Latin Finance (18 mar 2026): “Brazil tempers rate cut as Iran war urges caution”. Acesse a notícia original
Valor International (10 mar 2026): “Brazil inflation outlook at risk as Middle East conflict deepens”. Acesse a notícia original
Banco Central do Brasil (mar 2026): “Monetary Policy Report – March 2026”. Acesse o documento original
Central Banking (19 mar 2026): “Brazil starts easing with cautious rate cut amid oil shock”. Acesse a notícia original
Trading Economics (26 abr 2026): “Brazilian Real Hits 25-month High”. Acesse a notícia original

