Arrecadação fraca do imposto sobre dividendos testa o plano fiscal de Lula
O imposto sobre dividendos começou 2026 muito abaixo do que o governo brasileiro esperava arrecadar. Segundo a Reuters, a nova cobrança reteve 10% sobre dividendos domésticos acima de 50 mil reais e sobre remessas de dividendos ao exterior, mas somou apenas 156,9 milhões de reais em janeiro e fevereiro. O valor representa menos de 1% da projeção anual de 30 bilhões de reais, um início que imediatamente levantou dúvidas sobre a capacidade de a medida sustentar a engenharia fiscal vendida pelo Planalto.
O desenho original da medida era ambicioso: compensar parte relevante da renúncia causada pela ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para trabalhadores de renda mais baixa. Quando a arrecadação fica tão distante da meta logo na largada, o debate deixa de ser apenas tributário e passa a ser um teste concreto de credibilidade fiscal.
Imposto sobre dividendos falha na largada
O tributo foi lançado como uma peça central da nova arquitetura tributária do governo. Em teoria, a cobrança ajudaria a financiar a expansão da faixa de isenção do Imposto de Renda e permitiria ao Planalto vender a mudança como socialmente mais progressiva sem romper o compromisso de neutralidade fiscal. O problema é que os primeiros números enfraqueceram essa tese antes mesmo de a política ganhar escala.
O teste de credibilidade visto de fora
Na leitura da imprensa estrangeira, o problema não está apenas no número fraco do bimestre, mas no que ele simboliza. O tributo foi desenhado para compensar cerca de 28 bilhões de reais de renúncia com a ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até 5 mil reais por mês. Quando a receita prometida não aparece, a narrativa de neutralidade fiscal perde força, e o debate volta a ser menos sobre justiça tributária e mais sobre credibilidade na execução das contas públicas.
Por que isso pesa no Brasil
Para o Brasil, o impacto vai além da discussão tributária. Sempre que uma compensação anunciada pelo governo parece incerta, investidores, analistas e agentes de mercado tendem a reavaliar o risco fiscal do país. Isso afeta a percepção sobre trajetória da dívida, espaço para gasto e consistência da política econômica. Em outras palavras, uma frustração de arrecadação em um imposto recém-criado pode recolocar o fiscal brasileiro no centro da atenção externa justamente quando o governo tentava sustentar que a mudança no IR não deterioraria as contas públicas.
O que pode mudar daqui para frente
Há uma explicação relevante para a largada fraca: empresas podem ter antecipado a distribuição de dividendos no fim de 2025 para escapar da nova cobrança. A Receita Federal mantém a projeção anual e argumenta que o fluxo de dividendos é irregular ao longo do ano, o que impediria conclusões definitivas com apenas dois meses de dados. Ainda assim, o episódio mostra que a aposta oficial dependerá menos do desenho político da medida e mais da arrecadação efetiva. Se essa recuperação não vier, o custo será duplo: frustração de receita e desgaste adicional da promessa de responsabilidade fiscal.
Fonte: Reuters, em 16 de abril de 2026, sobre a arrecadação inicial do novo imposto sobre dividendos e o teste de credibilidade fiscal para o plano tributário do governo Lula.

