A Scala AI City colocou o Rio Grande do Sul no centro de uma disputa que mistura energia, infraestrutura crítica e geopolítica. A Scala Data Centers negocia com grupos de tecnologia dos Estados Unidos e da China para levar um hyperscaler ao projeto em Eldorado do Sul e vender o Brasil como uma base rara para cargas de inteligência artificial, com energia renovável, rede integrada e distância dos principais focos de conflito.
Scala AI City tenta fechar o cliente âncora
Segundo executivo da companhia em entrevista à Bloomberg, a construção da primeira fase deve começar no fim deste ano. Esse estágio inicial exigiria cerca de US$ 500 milhões em infraestrutura, enquanto o ocupante do campus teria de investir múltiplos desse valor em chips, servidores e equipamentos voltados a IA.
A tese não nasceu agora. Em 2024, a Scala e o governo gaúcho anunciaram o projeto como um distrito de data centers com 54 MW de capacidade inicial. Em 2025, a empresa informou ter obtido autorização federal para conexão de até 5 GW ao Sistema Interligado Nacional, um nível que transforma o campus em aposta de escala continental, não apenas regional.
Brasil entra no tabuleiro entre EUA e China
O ponto novo é a abordagem comercial. A empresa diz conversar ao mesmo tempo com gigantes americanas e chinesas e sustenta que clientes de origens distintas podem operar em instalações separadas dentro do mesmo complexo. Num momento em que infraestrutura digital passou a ser tratada como ativo estratégico, essa flexibilidade virou argumento de venda.
A leitura internacional é que o Brasil oferece uma combinação difícil de encontrar em mercados já congestionados: matriz elétrica mais limpa, fibra abundante, terreno para expansão e menor exposição direta às zonas de conflito que hoje pesam nas decisões de localização de data centers. Não por acaso, o país passou a ser tratado por analistas do setor como novo campo de disputa entre capital americano e chinês em infraestrutura digital.
Energia vira ativo de exportação
Se a Scala conseguir converter conversas em contrato, o ganho para o Brasil vai além de um novo empreendimento imobiliário. O caso mede se o país consegue transformar energia renovável, transmissão, licenciamento e conectividade em uma nova classe de exportação: capacidade computacional instalada para a economia global de IA.
Para o Rio Grande do Sul, o projeto também carrega um componente industrial e simbólico. O governo local o trata como vetor de reconstrução e atração de investimento depois das enchentes de 2024. Já para o Brasil, a operação seria um teste concreto de como sair do papel de fornecedor de energia e território e capturar uma fatia mais sofisticada da cadeia digital.
O gargalo agora é virar capex real
O discurso estratégico ainda precisa atravessar sua etapa mais difícil: fechar um cliente âncora e transformar ambição em desembolso efetivo. Sem um hyperscaler comprometido, a Scala AI City continua sendo uma tese poderosa, mas ainda incompleta. Com um contrato assinado, o projeto passa a funcionar como prova de que o Brasil pode disputar a próxima onda global de infraestrutura com mais do que promessa.
Na prática, é isso que faz a pauta importar. O mercado já reconhece que o país tem energia, espaço e geografia favorável. O que falta saber é se esses ativos conseguem ser empacotados com previsibilidade regulatória e execução suficiente para atrair o capital mais pesado da corrida global por IA.
Fontes: Bloomberg, em 20 de abril de 2026, via republicação no Financial Post, sobre as negociações da Scala com empresas dos Estados Unidos e da China; Scala Data Centers, no anúncio de setembro de 2024 sobre o investimento inicial de US$ 500 milhões e o acordo com o governo do Rio Grande do Sul; PR Newswire/Scala, no comunicado de maio de 2025 sobre a autorização de conexão de até 5 GW ao Sistema Interligado Nacional.

